Se ao ouvir essa pergunta, você já ficou pensando naquele perfil um tanto “clichê” de terninho ou naquele chefe de cozinha que aparece na TV e que, talvez, nenhum deles esteja na sua rede de amigos, tem algo de errado aí. Estamos cercados de pessoas empreendedoras ao nosso redor.

Um exemplo se faz quando paramos no semáforo ou entramos no ônibus e vemos pessoas vendendo balas ou outras guloseimas: Elas são menos empreendedoras que donos de grandes empresas? A resposta é não. Isto porque ser empreendedor não tem a ver com a renda que se ganha com algo.
Porém, assim como vendedores de balas, outros tantos comerciantes da periferia não se reconhecem como empreendedores, tão menos como empresários.

Esse termo, que talvez seja um tanto “erudito” precisa atravessar mais as pontes – como dizemos em São Paulo para nos referirmos no que diz respeito ao acesso às periferias, pois os principais rios da cidade delimitam as zonas nobres e as periféricas. Muito desse auto reconhecimento (ou falta dele) tem a ver com o que nos é passado desde a infância, mas que tem uma raiz na história de nossos pais e avós e, obviamente, no nosso passado escravocrata. Tem-se sempre que fazer muito para se ter o mínimo em prol da sobrevivência. No entanto, sobrevivência não é vida.


As pessoas da periferia de tanto se contorcerem, retorcerem para caber, dar jeitos para estarem onde estão e alimentarem os seus, se encontram – e talvez não saibam – diante de um potencial gigante que envolve resiliência, criatividade, resistência e, diante de tantas ações e projetos sociais que tem ocorrido nos últimos tempos, tem sido possível ver cada vez mais que as
transformações só acontecem coletivamente.


Longe de mim romantizar a dor e dizer que a realidade atual é a ideal, deixando de denunciar os abusos, o desgoverno, a falta de segurança, de saneamento, de educação e tudo o mais. No entanto, o que quero dizer é que, diante de tudo isso, não se ficou imóvel e é aí que o empreendedorismo entra.
Quantas pessoas – principalmente mulheres e mães em sua grande maioria – ao perderem o emprego não se arriscaram a produzir e vender doces, bolos, trufas, salgados em meio aos cuidados com a casa e filhos? Analisando brevemente, é possível verificar duas características importantes: organização e resiliência.


Uma empreendedora como essa pode crescer ou pode apenas “apagar incêndios”, pois sabe-se que quase 60% das empresas que se formalizam fecham em 5 anos e, com o advento da pandemia, esses números modificaram, principalmente para o ramo da gastronomia. Para que esse quadro diminua nas periferias e para que a periferia passe a cada vez mais se auto sustentar, é necessário que se instrumentalize os empreendedores e empreendedoras. Para tanto, é necessário que se leve o melhor conhecimento e as melhores ferramentas possíveis.


Uma ação que já está sendo feita se deu a partir da parceria da Gastronomia Periférica com a
EGG. Os educadores e educadoras da Gastronomia Periférica tem passado pelas ricas formações
da EGG com o intuito de levar esses conhecimentos para os educandos da GP.
Este é um movimento muito importante, visto que o conhecimento traz segurança e com
segurança, com reconhecimento de si enquanto empreendedor, o empresário periférico poderá
olhar mais amplamente para seu negócio, planejar melhor, vislumbrar o que antes não era
possível e crescer.
Como citei acima, a transformação acontece em comunidade e, como bem disse Paulo Freire
“seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de
educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica.” Assim sendo, nós temos cada vez mais de fazer por nós mesmos em busca do fortalecimento da educação, autoestima e segurança dos empreendedores periféricos.

Daniela Souza Meira
Educadora Social, Pedagoga.